
Primeiro dia é dia de todos nós nos apresentarmos e dizermos porque estamos aqui. Fizemos nossa roda e eu abri com a narrativa de um "santero", um pai-de-santo cubano que escreveu o livro Los Secretos de la Santería em 1959, segundo ele com o propósito de "fazer desaparecer tanto disse-me-disse e superstições que andam sendo veiculadas por aqui, desde o século passado, acerca da religião Lucumí [ou Santería, bem próxima do Candomblé brasileiro e igualmente de origem iourubá]". Depois do prólogo em que dá esta explicação, ele abre o livro com um emocionante relato em que se põe na pele de um aldeão africano capturado e trazido como escravo, e que nos proporciona uma bela reflexão sobre o papel da religião para as populações escravas da Diáspora Africana:
“Meus deuses são meu único tesouro”
“Como você se sentiria, se fosse um simples homem do campo, com uma mentalidade primitiva, acostumado a uma vida simples e a guerrear somente para defender o que possui, se um dia, inesperadamente, fosse capturado por seus irmãos de raça ou por mercadores de escravos árabes ou brancos, o levassem acorrentado até o litoral e o maltratassem caso se queixasse ou caísse ou pedisse água? Qual seria a sua reação ao ver a maior canoa que já vira em sua vida? Como se sentiria ao ser embarcado na canoa deixando para trás a mulher, os filhos, o pai, os irmãos, a terra, os animais de trabalho, a terra cultivada? Em questão de horas ou de dias, você teria perdido tudo. Não é nada, não é ninguém, não tem nem nome. O marcaram com um número ou com um desenho, como se fosse gado.
Aonde o levam? Não o sabe. Ninguém sabe de nada. Você não entende a língua dos que manejam a canoa grande. Seu medo é imenso assim que os mais fracos começam a morrer no barco. Se assusta quando o fazem sair à parte superior da canoa e o deixam ali em cima, tomando sol e caminhando por horas. Onde está a terra? Por que só há mar em todas as direções? Aonde vão?
Quando baixa ao fundo da canoa e o acorrentam novamente, você está a sós com os seus pensamentos e o seu medo. Para não pensar, chora como uma criança. E para arrancar seu medo se apega a seus deuses: Xangó, Obatalá, Orunmilá – seus deuses, tão apaixonados, tão humanos! – porque eles são agora seu único sustentáculo. Desde então você está apegado a eles, para não deixar de ser quem é: africano, iorubá e, no passado, um homem livre.”
Fonte: EFUNDÉ, Agún, (1996) Los secretos de la Santería. Miami, Ediciones Universal.3.ed. p.11. Trecho traduzido por Marcos Alvito
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